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Cachorro no Shopping

Dia desses no estacionamento do shopping, um casal saía do carro com 2 Spitz na coleira. Quando passei, um latiu para mim, o outro se abanou puxou na minha direção. Perguntei se podia falar com eles, pois sou dessas, acho tremenda grosseria não falar com um cachorro que fale comigo, mas também acho que se deve perguntar. Comecei a fazer carinho num, o outro acabou vindo e ganhou cafuné também.  A moça que segurava a coleira falou: “que bom que você falou com ela, é tímida, late, e as pessoas se afastam, quero socializá-la mas saímos pouco”. Minha alma de treinadora quase soltou um “senta aqui e pega um bloquinho”, mas lembrei que o motivo da minha rara ida ao shopping era achar um presente, que não treino mais, e que não posso me meter na vida dos outros (conceito ainda a ser trabalhado…). Sorri, falei “insiste, leva ela sempre a todos os lugares, vai melhorar com o tempo.” E segui.

 

Mas segui pensando … toda hora vejo na minha telinha pessoas falando horrores de “cachorro passeando no shopping”, que “cachorro tem que estar na natureza, correr no parque, pisar na terra” que é “absurdo e antinatural levarem para lugar de gente”.

 

Não discordo em parte, não sou doida e é claro que o ideal é que todo cachorro passeie na grama, em parque, em sítio, em lago, na praia (que há quem reclame), etc, etc. Mas … e quando não dá? E quando o lugar que a pessoa mora é longe disso tudo, ou a rotina de trabalho é apertada, e no tempo que sobra, ela precisa ir ao shopping achar um presente? Seria melhor ela deixar o cachorro em casa do que levar ao shopping? Seria melhor ele estar sem estímulos, talvez sozinho em casa, do que “num lugar artificial cheio de luzes, chão frio e pessoas falando”? Por quê?

 

Claro que se o cachorro tem medo, late sem parar, ou morde sem motivo, esse passeio tem que virar um treino, ter acompanhamento e trabalho. Mas isso é outra conversa. Não estou advogando obrigar um animal a estar onde não quer, nem a falta de educação de humanos ou caninos, que fique claro. Mas botar uma verdade absoluta na vida, e nos cachorros, dos outros é complicado. Para o cachorro, na grande maioria das vezes, é muito melhor estar onde quer que seja com seus responsáveis, do que em casa. E ele só vai ser educado, se tiver a chance de ser educado.

 

Lá pelas tantas passa uma senhora com um carrinho de bebê, chamou minha atenção, olhei e tcham, uma vira-lata descabelada com cara de velhinha me olhou de volta. “Que linda!” Disse eu. “Linda e sem caráter, não põe a mão que ela pode morder” respondeu a senhora rindo meio sem graça. Eu ri, a cadelinha me olhava com cara de “experimenta!”. Ri mais. “Ela não consegue mais andar muito, então comprei esse carrinho para ela sair comigo e se distrair”. Percebi um desconforto nela, como se antecipasse um julgamento por estar comum cachorro no carrinho de bebê. Meu coração doeu por ela. Falei “está certíssima, ela tem que passear, ver coisas e sentir cheiros, muito melhor do que ficar em casa”. A senhora abriu um sorrisão e disse “ela tem 16 anos, quando era jovem, passeamos muito, agora não dá mais, ela não aguenta nem um quarteirão”. “Que bom que ela tem você para levá-la por aí!” disse eu. Sorrimos e seguimos cada uma seu caminho.

 

Mas aí o assunto ficou na minha cabeça de vez. Lembrei de um biólogo no Instagram, falando horrores de cachorros “humanizados, desvirtuados de sua natureza em shoppings e carrinhos pela cidade”. Será?

 

Será que falar assim não é precipitado e até mesmo preconceituoso? Será que em hora de sol quente, onde a calçada ferve e o ar até 50 cm acima dela também, não é mais responsável colocar um cachorro na mochila ou no carrinho do que submetê-lo ao chão? Será que a gente não precisa abrir um pouco a cabeça para as adaptações necessárias à nossa vida urbana? Não vou repetir que para ele, estar sassaricando na rua é sempre melhor que em casa quieto. Claro que não estou falando dos exageros, e eles existem. Claro que um cachorro todo vestido, com laços e perfumes, que jamais coloca as patas no chão, não interage com outros animais nem nunca viu uma grama na vida, não está vivendo em plenitude sua “cachorrice”, se podemos falar assim, e isso não é “certo” (não vou entrar no debate do que é certo ou não, porque dá outro texto). Sim, existe humanização exagerada, sim, existe um monte de maluquices das pessoas, mas não estamos falando disso.

 

Meu ponto aqui é: se o cachorro está feliz, a pessoa está feliz e não estão incomodando ninguém, não generalizemos o shopping, o carrinho, o sapatinho, o restaurante ou o avião. Nós não sabemos as circunstâncias das pessoas, nem dos cachorros, então … sejamos mais acolhedores da decisão alheia? Do modo de vida do outro, que pode me parecer estranho, mas é dele? Sejamos mais questionadores dos nossos preconceitos,  do que achamos certo ou errado num mundo que muda tão rapidamente e nos obriga, humanos e animais, a nos adaptarmos numa velocidade nada natural. Os cães estão conosco na vida cotidiana há pelo menos 12 mil anos, comprovadamente. Não julguemos tão rapidamente pessoas que tentam mantê-los por perto do seu dia a dia, mesmo que seja no shopping.

 

Achei uma blusinha linda para o presente, resolvido! Comprei. E na saída da loja … uma jovem administrava (tentava…) 2 crianças querendo correr no corredor e um labrador adolescente querendo ir com elas. DESSA eu tive pena! Pensei cá comigo “ela deveria estar num parque … mas … será que ela precisa comprar um presente?”.

Rio de Janeiro, Fevereiro de 2026.