– “ Acho que ele precisa de um irmão, estou pensando em adotar outro filhote! “
Essa frase era comum nos meus anos de consultoria comportamental, e ainda é entre amigos e em conversas informais, principalmente quando a pessoa trabalha fora de casa ou viaja muito.
Todo mundo quer o melhor para seu peludo, seja ele cachorro ou gato, e pensar no nosso bichinho sozinho em casa dá pena, queremos que ele tenha com quem interagir durante a nossa ausência, com quem brincar, ou mesmo só dormir juntinho.
O que maioria das pessoas não sabe, é que a escolha desse irmão pode não ser tão óbvia quanto parece, e pode determinar se a decisão será um sucesso, ou um desastre em casa.
A primeira coisa a levar em conta, é que nem todo pet precisa, ou mesmo gostaria, de um “irmão” igual a ele. A nossa seleção de cães e gatos ao longo dos séculos priorizou os indivíduos mais afetuosos e apegados aos humanos, os mais colaborativos no trabalho e mais “inteligentes” segundo os nossos padrões. Com isso criamos pets cujo interesse maior é no humano e não nos seus iguais. Para alguns cães e gatos, se os humanos da casa dão atenção, carinho, exercícios e alimentação, está tudo bem ficar em casa sozinho algumas horas. Eles dormem, relaxam e esperam as pessoas chegarem para se divertirem. Ter outro cachorro ou gato na casa pode ser visto como competição por espeço, e divisão de recursos (sim, somos recursos para eles, e valiosos).
Claro que isso não é regra, e sim, existem animais que são mais felizes tendo uma companhia também animal em casa! Ainda bem, já que a maioria de nós quer mesmo ter mais de um pet e dar um irmão para o primeiro é quase só uma desculpa para pegarmos o segundo!
Mas para saber se seu pet é um bom candidato a irmão mais velho, é importante conhece-lo bem. Com gatos é mais difícil, já que raramente passeiam, mas com cães, dá para ter um parâmetro pela interação dele na rua, ou na casa de amigos. Ele gosta de outros cães? Ele brinca, divide suas coisas e a atenção dos humanos numa boa? É importante observar que brincar um pouco, correr para lá e para cá, é diferente de dividir recursos. Se ele brinca, mas na hora de beber água, ou de ganhar carinho, ou de pegar a bolinha “não gosta” da proximidade do outro, pode ser que ele se estresse com um “outro” dentro de casa com ele e “sua” família.
O que muita gente não sabe, é que uma solução que geralmente funciona MUITO bem para dar companhia para nossos pets sem o estresse da competição é … um irmão de outra espécie!
Muitas vezes cães e gatos aceitam muito melhor a companhia um do outro, do que de um irmão da mesma espécie. Por terem linguagens diferentes, movimentações diferentes e serem … diferentes … o sentimento de competição é normalmente menos presente. Claro que pode existir ciúmes, assim como eles às vezes têm até com diferentes membros da família humana, mas é menos intenso do que com outro cão ou outro gato. Com alguns gatos então, normalmente é muito mais fácil introduzir um cachorro na família do que outro gato. Ok, eles olham com desdém … isso é fato. E acham os cachorros sujíssimos … e espalhafatosos … a gente sabe. Mas com o tempo, eles se rendem às palhaçadas e enorme vontade do cachorro de ser amigo dele. São muito poucos os casos que vi onde não houve adaptação.
É claro que temos que ter bom senso na escolha, principalmente se o cachorro já for o dono da casa, afinal, ele pode machucar o gato e vice versa. Se você tem um cachorro que já detesta gatos, a coisa se complica, não é impossível, mas vai dar trabalho e provavelmente precisar de ajuda profissional. Se ele nunca chegou perto de um gato, mas tem forte instinto de caça, cuidados terão que ser tomados também, e algum tempo dedicado à adaptação.
Mas às vezes a coisa se ajeita muito mais rápido do que a gente espera. Tive essa experiência na minha casa, onde adaptei, em épocas diferentes, 2 das minhas cadelas que davam corridas em gatos que apareciam no sítio (contra a minha vontade, mas impossível de controlar) aos meus gatos quando precisaram vir para o apartamento. Achei que seria muito mais demorado do que foi para elas entenderem que aqueles gatos não eram “bichos para se correr atrás” , mas sim “irmãozinhos” . Ambas passaram inclusive a aceitar e lamber gatinhos resgatados de virava e mexia passavam, e ainda passam, por aqui. A foto de uma delas com uma das minhas gatas ilustra esse texto.
Se o cachorro for pequeno, é geralmente mais fácil, já que a pouca diferença de tamanho ajuda o gato a se sentir mais seguro e faz o cachorro pensar 2 vezes antes de fazer alguma bobagem. Mas tem uns pequenos que têm muito impulso de caça, ou muita posse da casa e de seus humanos, e nesse caso, também pode ser preciso tomar alguns cuidados. A vantagem é que o gato sobe em lugares onde o cachorro não chega e isso ajuda a que se possa manter ambos no mesmo ambiente sem perigo enquanto de acostumam.
Os casos em que eu mais vi cachorros que odiaram ter outro cachorro em casa se darem super bem com gatos foram casos de cães pequenos, mimados (desculpem mas a palavra é essa), ciumentos e possessivos com seus humanos. Com outros cães a competição era insuportável e estressante para eles, já com o gato … tudo bem. Até por que o gato não entra na pilha do cachorro, ele normalmente só sai de perto, não dá a mínima para aquele brinquedo ou a cama específica, aí o motivo da briga acaba, e o cachorro acalma. Vi casos muito impressionantes.
Para alguns cães, será mais fácil aceitar filhotes de gato, mas para outros, um gato adulto que não tenha medo de cachorros pode ser a melhor opção. O bom dessa opção é que já dá para saber o temperamento do gato, e ele já está tranquilo o que acalma todo o processo. Com o gatinho filhote, ele pode ficar com medo e se retrair e isso pode fazer tudo demorar mais, além dele ser mais agitado.
Já se o gato já é o dono da casa, trazer um cão pequeno, ou se for grande que seja mais tranquilão, geralmente é mais fácil. Um filhote vai querer muito mexer no gato, e aí o gato pode se estressar. Por outro lado … adultos tendem a reconhecer filhotes e a serem mais pacientes com eles … então às vezes o quadro mais improvável se torna o mais fácil.
Claro que a forma mais fácil de todas é resolver isso desde o início e adotar ambos ao mesmo tempo. Sejam ambos filhotes, ou não, se chegarem juntos na nova casa a tendência é a ligação entre eles ser mais fácil e rápida. Fora que não tem coisa mais linda que ver um gatinho e um cachorrinho dormindo juntinhos!
De qualquer forma, o objetivo deste texto é trazer essa ideia para você, que pensa e ter um irmãozinho para seu pet, mas achava que ser outro cachorro ou outro gato era a única opção, ou a mais fácil. Não é! 😊. Mesmo que você precise de alguma ajuda profissional, talvez também fosse precisar se optasse por um filhote da mesma espécie, então não deixe que isso te desanime. Pode acreditar, “ como cão e gato” é uma frase de amor e companheirismo!
Rio de Janeiro, 14 de julho de 2026
Daniela Prado
Socia Fundadora da Okena PetChef
Treinadora LordCão Treinamento de Cães